Post its de carne & putrefação

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Post its de carne & putrefação evidencia um duplo movimento de Mara Coradello: um amadurecimento, que (porém) se manifesta justamente pelo encolhimento da preocupação com a perfeição formal. Nesse sentido, o aspecto de inacabamento de alguns textos e a recuperação de metáforas recorrentes denotam uma escritora menos preocupada em provar a que veio – é um prazer lê-la tão mais liberada. Coradello sabe quem é, e seus leitores habituais, como eu, não hesitam em reconhecer na nova obra uma mesma autora e já agora outra.

Desde a epígrafe de Maiakóvski, o trânsito por verso e prosa poética, a bipartição da obra, a reiteração interna evidenciam que, a despeito da possível primeira impressão, tudo ali é projeto: de um lado, uma escrita “post-ítica”, na forma de lembretes, bilhetes breves, antimonumentais; de outro, o movimento dialético entre o que não deve ser esquecido (e, portanto, merece um “post it”), mas não deve ser sacralizado, fetichizado. O risco é a lógica do descarte, do consumo: entretanto, Mara Coradello enfrenta esse risco com uma compreensão crítica de seu tempo, calcada na história, ao mesmo tempo reproduzindo pelos cortes dos versos ora o ritmo alucinado de nossos tempos, ora alongando o tempo da reflexão.

Post its de carne & putrefação não poupa ninguém mesmo, particularmente a classe média, as neomistificações, o patriarcado. Mas, sendo um livro de Mara Coradello, não poderia faltar a frase lapidada e, claro, o amor, o corpo, o gozo, em chave meta-irônica e mesmo, eventualmente, desencantada.

Maria Amélia Dalvi
Professora, pesquisadora, escritora | Ufes